João Anacleto / de Genebra, Suíça
Nos últimos cinco anos, a onda verde tomava conta dos salões mundo afora. O olhar para o futuro colocava o ano de 2010 como o divisor de águas na maneira de se pensar os automóveis que o consumidor deseja. Salões verdes e elétricos, onde os carros-conceitos tomavam o lugar dos lançamentos imediatistas, eram a tônica principal. Neste ano, coincidentemente, todos os fabricantes, como que se combinassem, resolveram que despejarão em suas concessionárias as mais variadas formas de se economizar dinheiro, poupar o meio ambiente e se adequar às normas de emissões de poluentes europeias.
Aqui acendeu-se o pavio para uma explosão de novidades. Muito diferente do ano passado, uma vez que a mostra de 2009 trouxe aos pavilhões do PALEXPO fabricantes com os freios de mão puxados, tentando manter-se firmes diante da avalanche econômica que devastava o hemisferio norte entre outubro de 2008 e outubro de 2009. Eles não economizaram em endeusar números. Estampam em seus carros as emissões de poluentes. Adesivos com números em torno de 100gCO2/km rodado sempre estão ao alcance dos olhos assim como o 3,7l/100 km, algo que soa como "mais de 25 km/l". Caem nos ouvidos e brilham nos olhos como se fossem medidas de uma mulher, que acumule 90 cm de busto, 60 cm de cintura e 90 cm quadril. E assim como fazem as mulheres, a ordem nas montadoras é tentar chegar o mais proximo dessa nova "imagem".
Os destaques vindos da Alemanha
As alemãs estão à frente nesta briga. A Mercedes-Benz, ao mesmo tempo que prepara suas armas para surpreender o mundo de quem gosta de acelerar, com o novo motor da AMG (V8 5.5 biturbo), não economizou em sua linha Blue Efficiency, na qual até um Classe E e um Classe S concordam em gastar e poluir menos dotados de motores menores com injeção direta. A diferença, dizem os executivos da empresa, é que a marca esta em uma fase muito mais avançada na busca pelo melhor entendimento entre os automóveis e o meio ambiente, a Mercedes entrega ao consumidor hoje o que a maioria dos fabricantes ainda tem apenas nas pranchetas. Mesmo com o superesportivo SLS vestido de Safety Car, a imagem verde (ou azul por aqui) da marca não pode ser maculada.
Dentre as outras conterrâneas, vedetes na confederação helvética que tem mais de 70% de seus habitantes falando alemão, Porsche, Audi e BMW também vieram com algumas novidades importantes nesse vértice cada vez mais agudo. A marca de Stuttgart apresentou o seu primeiro híbrido e já aproveitou o novíssimo Cayenne para isso. Nem as pistas escaparam da seriedade da marca em tratar o tema. Até o lendário GT3 ganhou dois motores elétricos nas rodas dianteiras para acelerar mais. Mas o mais festejado foi o protótipo 918, uma vez que com 700 cv, aliando um motor de 500 cv a gasolina e dois propulsores elétricos, um por eixo, ele atinge uma média de 33,3 km/l no ciclo de medição europeu.
A Audi fez jus à fama do salão em ser o berço dos compactos ao apresentar por aqui o inédito A1, também com um protótipo elétrico, claro. A empresa fez questão de se dispor ao novo mundo que se agiganta ao colocar nas concessionárias o novíssimo Audi A8 híbrido. Ele é puxado por um motor 2.0 turbo a gasolina (do Audi A3) e mais um propulsor elétrico de 45 cv. Na BMW a palavra Efficient Dynamics já virou ordem nos últimos cinco anos, agora é a vez dos esportivos entrarem na dança. A marca apresentou um M3 com novo kit aerodinâmico e de equipamentos e dotado de sistema Start Stop. O novo Série 5 também recebeu as benesses híbridas pela primeira vez aqui na Suíça.
O mundo "verde"
Mas nem só de vedetes da casa se faz um salão, às vezes grandes feitos estão nos coadjuvantes. Para você ver, até a Tata Motors mostrou sua versão final do Nano elétrico, chamado de EV. A Hyundai, por exemplo, colocou toda a sua linha de compactos vendidos na Europa, o i10, i20 e i30 na linha Blue Drive. Dotados de pequenos motores a diesel estamparam em letras garrafais seus 96gCO, 98gCO ou 99gCO de emissões por quilômetro rodado. A marca anunciou ainda que muito em breve terá à disposição de seus consumidores europeus um conjunto de motor turbodiesel de alta tecnologia, com injeção direta, ligado a um câmbio de 7 marchas de dupla embreagem.
Já a Kia, além do otimismo em projetar crescimento de suas vendas mundiais em mais de 10% em 2010, enquanto todas as outras só falam em mater os níveis atuais, teve seu novo Sportage muito comemorado por aqui. A marca é a única do mundo a dar sete anos de garantia em seus produtos na Europa – a Hyundai dá os mesmos cinco do Brasil – e os traços joviais do novo SUV encantaram a mídia especializada do velho mundo.
Na Ford, que anda feliz pela colheita de frutos do novo Fiesta, apresentou o primeiro propulsor EcoBoost pronto para rodar na Europa, na versão wagon do novo Focus, que chega antes mesmo do hatch, já que os europeus adoram peruas. John Fleming, CEO da marca, ainda anunciou que até 2013 o continente será agraciado com cinco opções entre híbridos e elétricos para o Focus e seus derivados e para os veículos comerciais da Ford.
A Fiat, especializada nos carros pequenos, não trouxe nenhum modelo novo para a festa na Suíça. Contudo, cortou bolo para os 30 anos do Panda e apresentou o novo motor Twin Air, bicilíndrico a diesel, além de bradar aos quatro ventos ser a fabricantes de veículos mais "verde" da Europa, com media de 127,8 g CO 2/km no continente. Entretanto, não colocou as emissões de poluentes dos HEMI V8 de Dodge, Chrysler e Jeep em sua conta, marcas que trouxe a tiracolo para cá. Contudo, a maior surpresa do grupo foi o conceito da Ferrari híbrida, com o mesmo sistema Kers da F-1. Apesar de ser um conceito com viés esportivo, a 599 GTB Fiorano, que recebeu o sobrenome Kers HY, é composta de duas baterias que dão 100 cv de forca extra quando o motorista quiser. Até Luca di Montezemolo se mostrou entusiasmado com a novidade. "Nunca havia visto uma Ferrari verde, muito menos eletrica", emendou.
Entre as francesas, a principal novidade veio da Peugeot, que mostrou em forma conceitual como deve ser uma nova geração de sedãs luxuosos, o Peugeot 5. A marca também aproveitou a parceria com a Mitsubishi para mostrar a sua caracterização elétrica com base no I-MiEV, o Ion. A Renault, indiretamente, apresentou o Dacia Duster, que chega ao Brasil em 2011. O carro impressiona pelo bom aproveitamento de espaço, mas, como todo Dacia, tem desconjunturas estéticas que só mesmo os romenos devem aprovar. A Nissan lançou o novo Micra e o brasileiro Carlos Ghosn, CEO da aliança Renault-Nissan, já confirmou que o carro deve chegar ao Brasil até o fim do ano.
E isso foi só uma síntese do primeiro dia. Genebra está cada vez maior, principalmente em público. Até os americanos passaram a se interessar muito pelo que vem daqui. Novidades, entrevistas e projetos rodeiam os pavilhões e deixam os jornalistas em polvorosa. Hoje é dia de dar uma olhada em máquinas que só se ve por aqui como Gumpert, Morgan, Weissman, Koenigsegg, RUF, Zagato, Bertone, entre outras. É hora de voar, mesmo que por onde se olhe ao lado tenha alguém lhe devolvendo os pés ao chão.
 O Spyder da Porsche tem motor elétrico combinado com um sistema V8 de 500 cavalos de potência

 Audi A8 Híbrido
 A Ferrari apresentou o 599 HY-KERS, que tem o motor elétrico de alta voltagem
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